



Ser mãe é ser forte e estar disposta a enfrentar e superar os obstáculos da vida para oferecer o melhor aos filhos. Quem carrega esses adjetivos é a Kenia Nascimento Araújo, 36 anos, mãe do Enzo Monteiro, de 17 anos, e do Otávio Monteiro, de 9 anos.
Nordestina, Kenia Araújo nasceu na cidade de Imperatriz, no Maranhão, mas pode ser considerada uma cravinhense de coração, pois mudou-se para Cravinhos com apenas 9 anos de idade. Aqui ela cresceu, estudou e construiu sua família. Porém, há aproximadamente 3 anos ela se divorciou do pai dos seus filhos, após 15 anos de casada. Desde então, Kenia tem batalhado para garantir o bem-estar dos seus meninos. “Me separei do meu ex-marido faz 3 anos e por mais que ele seja um pai participativo, de lá para cá minha carga de reponsabilidade com a educação e sustento dos meninos aumentou bastante”, disse.
Ajustando a rotina
Parte do aumento dessa carga está relacionado ao cuidado e zelo que a mãe tem com os filhos, em especial com o filho mais novo, Otávio, que é portador do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa condição, associada a todas as mudanças que ocorreram, fez com que a Kenia precisasse de muita ajuda, “Logo após o divórcio e todas as mudanças que isso acarretou a minha vida, confesso que o primeiro ano foi bem complicado. Tenho um filho, Otávio que tem autismo de suporte 1. É um grau leve, mas necessita de cuidados e atenção, por isso no começo foi difícil encontrar uma babá que desse certo para ficar com ele, pois ele não se adaptava com ninguém. Então tinha dia que o Otávio ficava com uma tia, outro dia com uma prima, às vezes elas não conseguiam ficar e eu tinha que correr atrás de alguma amiga”, explicou.
O autismo nível 1, também conhecido com síndrome de Asperger, apresenta as mesmas características do autismo clássico, mas de uma forma um pouco mais leve. Os pacientes possuem dificuldade de comunicação, mas que não interfere nas relações sociais de forma tão explícita.
No objetivo de continuar trabalhando na empresa que estava registrada, Kenia foi fazendo aqueles malabarismos que só as mães sabem fazer para que as coisas pudessem continuar caminhando, principalmente para não impactar a rotina dos filhos. Porém, mesmo com os esforços, por fim ela teve que tomar uma decisão e fazer algumas renúncias. Foi quando ela se viu obrigada a deixar o emprego. “Depois de tentar conciliar tudo durante 1 ano, em uma conversa com minha mãe e minha irmã tomei a decisão de deixar meu emprego para ficar com meu filho”.
Reinventando-se
Kenia escolheu priorizar o cuidar do filho Otávio, ainda que sem nenhum planejamento em mente, sem nenhum plano B. “Depois que saí do trabalho eu me vi sem saber o que fazer, que caminho seguir, pois não tinha planejado nada. Foi aí que decidi começar a fazer unhas, pois eu poderia atender em casa e ficar com os dois meninos”.
E foi isso que ela fez. Preocupada em suprir as necessidades da casa, mesmo sem conhecimento, Kenia decidiu se reinventar, se aventurar e aprender uma nova profissão, a profissão de manicure. “Vai fazer 2 anos que eu decidi me aventurar no mundo das unhas. Eu não sabia nada, mas aos poucos fui aprendendo. Então hoje tenho sustentado meu lar com meu trabalho de manicure e algumas faxinas que eu pego, porque a pensão acaba sendo um valor muito baixo e insuficiente para manter uma casa”, disse.
Outra situação que fez Kenia optar por trabalhar como autônoma é que após a pandemia, seu filho Otávio não conseguiu retomar os estudos. “Depois da pandemia meu filho não estava conseguindo voltar para escola. Nem mesmo a terapia, o acompanhamento e os medicamentos o estavam ajudando a se desbloquear e eu não queria deixá-lo sem estudar”.


Como mãe é aquela que faz sacrifícios inimagináveis para que o filho possa avançar, mais uma vez Kenia não mediu esforços para que o filho pudesse estudar. “Por conta dessa dificuldade, o Otávio precisava de um monitor para acompanhá-lo em sala de aula, mas naquele momento o Estado não tinha nenhum disponível. Foi então que eu me dispus a ser a monitora do meu filho. Travei uma batalha na secretaria da Educação, com o prefeito, os vereadores, pois eu pensava, já que deixei tudo para cuidar dele, então eu vou cuidar. Até que por fim permitiram que eu o acompanhasse”.
Kenia disse que o início como monitora do filho foi muito difícil, mesmo assim ela insistiu. “No começo foi bem complicado lidar com o Otávio. Ele tinha crises, me batia, queria ir embora. Às vezes eu chegava na escola ficava 20 minutos e ia embora chorando. Mas com o passar dos dias, com muita calma e paciência nós fomos avançando e meu filho foi tomando gosto em ir para a escola”, falou.
Depois que esse turbilhão passou a mãe começou a ver o lado bom da situação. “Eu fiquei 6 meses acompanhando o Otávio na escola, de repente me vi novamente no 3° ano. Mas assim, depois de um tempo eu percebi que eu era privilegiada, porque comecei a pensar que muitos pais gostariam de ter mais tempo com os filhos e não podiam. Então passei a ter prazer em acompanhar o Otávio, tanto que quando encontraram um monitor para ele, eu senti muito ter que deixar de frequentar a escola, pois foram os melhores meses da minha vida’, disse Kenia.
Tudo valeu a pena
O tempo passou e hoje, apesar das dificuldades normais que toda mãe enfrenta na criação dos filhos, Kenia conseguiu se estabilizar, manter um cuidado maior dos seus filhos e ver que tudo valeu a pena. “Apesar dos desafios, eu vejo que tudo valeu a pena e faria todo sacrifício de novo se fosse preciso. Porque ser mãe é uma tarefa árdua, desafiadora, pois cada fase requer novas adaptações, mas no final, só o fato de ser mãe já compensa tudo”, finalizou.
Reportagem: Crislaine Messias





