Com abertura marcada por cantos tradicionais, poesia e o lançamento da exposição fotográfica “Raízes que movem”, o Festival Encontro de Saberes transformou o Centro Cultural SESI Ribeirão Preto, entre os dias 20 e 22 de março, em um espaço de troca, escuta e conexão com diferentes expressões da ancestralidade indígena e afro-brasileira.
Ao longo dos três dias, o público acompanhou oficinas, mesas de debate, intervenções artísticas e vivências que colocaram em diálogo práticas tradicionais, experiências pedagógicas e produções contemporâneas. A iniciativa aproximou diferentes territórios e trajetórias, reunindo artistas, educadores, pesquisadores, lideranças indígenas e interessados em torno de temas como identidade, memória, corpo e educação.
Idealizador e curador do festival, o artista e pesquisador Luís Silva destaca que o encontro nasceu da necessidade de dar visibilidade a culturas muitas vezes invisibilizadas no cotidiano. “Existe um apagamento muito grande sobre quem são os povos indígenas hoje. Procuramos mostrar que são culturas vivas, presentes, que produzem arte, pensamento e conhecimento”, afirma.


Abertura com arte e presença coletiva
A abertura, na sexta-feira (20), reuniu o público em torno da exposição “Raízes que movem”, com registros sobre identidades e modos de vida indígenas, além de intervenções com poesia slam com o Sarau Disseminas e cantos tradicionais. A mostra segue em cartaz no Centro Cultural Palace (Rua Duque de Caxias, 322, centro) até o dia 1º de abril – a visitação é gratuita.
Sábado: Corpo, território e continuidade dos saberes
No sábado (21), as atividades começaram com a oficina de capoeira e maculelê, conduzida pelo capoeirista Davi Ferrari, seguida pelo Ciclo Sagrado Feminino, que reuniu mulheres indígenas em uma roda de troca sobre cuidado, ancestralidade e transmissão de conhecimentos.
A liderança Potyra Krikati Guajajara destacou a importância de manter viva a cultura entre as novas gerações. “O que a gente faz é ensinar para os nossos filhos e também para outros jovens. A cultura está muito esquecida, e a gente precisa manter essa memória viva”, afirmou.
A tarde seguiu com a exibição do Cine Tekó e, à noite, a mesa “Corpo, Memória e Ancestralidade”, que integrou diferentes perspectivas sobre cosmovisões indígenas e modos de existência.
Durante o debate, o pajé e coreógrafo Jandé Nhandu Potyguara destacou o corpo como eixo central da vida. “Temos quatro pilares que são a consciência, o movimento, o sonho e o alimento. E o movimento é fundamental. Se a gente não se movimenta, não há pensamento, não há sonho”, explicou.
Na mesma mesa, o cacique Urutau Guajajara trouxe uma leitura que articulou espiritualidade, natureza e organização social. “O nosso povo respeita as forças da natureza. Para nós, não existe um único criador, mas diversos seres que protegem as águas, as florestas e os caminhos”, destacou.
Ao abordar a presença indígena nos contextos urbanos, ele lembrou as transformações impostas historicamente. “A cidade não foi construída por nós. A cidade é que veio até nós e nos urbanizou”, disse.
O cacique também chamou atenção para os desafios enfrentados pelos jovens indígenas, especialmente no acesso à educação. “A gente acompanha esses jovens em todo o território nacional e cobra das universidades esse espaço. Não é só entrar, é permanecer, é ser reconhecido”.
Em sua fala, Urutau Guajajara reforçou ainda a dimensão simbólica desses conhecimentos, conectando natureza, tempo e existência a partir de uma visão integrada do mundo.
Domingo: arte, educação e práticas pedagógicas
No domingo (22), a programação teve início com a oficina de grafismo indígena, conduzida por Tapixi Guajajara, aproximando o público de símbolos e traços presentes nas culturas originárias.
Na sequência, a bailarina e pesquisadora Mirian Miralles tomou o palco com uma reflexão sobre corpo, liberdade e contradições sociais por meio da dança contemporânea. “Nessa intervenção, eu quis trazer um pouco o automatismo que a gente vive no dia a dia. São corpos rígidos que às vezes não se sabem livres”, explicou a artista. A performance também dialogou com a vivência da artista enquanto cubana, trazendo referências políticas e históricas. “É um discurso sobre liberdade e soberania, mas que ao mesmo tempo impõe limites. Existe uma contradição, e os corpos vivem essa rigidez tentando mudar a rota”, completou.
A mesa “Práticas pedagógicas e saberes originários” reuniu educadores, artistas e representantes de diferentes territórios, promovendo uma reflexão sobre a presença dos saberes tradicionais na educação. Participaram do debate Jahnavi Dasi, Leonardo Sacramento, Elis Andirá e Juá Jacarandá.
Idealizadora do encontro, Jahnavi enfatizou a importância de levar essas discussões para o público local. “Eu senti uma grande gratidão por ver um sonho se realizando, de trazer à terra de Ribeirão Preto mais consciência sobre as nossas raízes”.
Ao conectar a mesa com a intervenção artística apresentada anteriormente, ela também provocou uma reflexão sobre os modos de vida contemporâneos. “Até quando vamos seguir andando como corpos rígidos? Quando é que vamos nos permitir fluir como a água, sair desse lugar de repetição e abrir espaço para outros modos de sentir e aprender?”, questionou, ao destacar a necessidade de uma educação mais sensível e conectada com a experiência.
A educadora indígena Juá Jacarandá trouxe ao debate a dimensão da educação como território de resistência e reconstrução de identidades. “Ser educador é também lutar dentro e fora da sala de aula. A gente precisa de uma educação que reconheça as nossas histórias, que valorize as nossas origens e que permita o bem viver”, afirmou. Ao compartilhar sua trajetória, marcada por deslocamentos e processos de retomada cultural, ela reforçou a importância da coletividade na formação. “Ninguém caminha sozinho. Se eu cheguei até aqui, foi porque outras pessoas me trouxeram conhecimento, oportunidade e reconhecimento”, completou.
O encerramento aconteceu com uma roda de cantos tradicionais indígenas, reunindo participantes e público em uma experiência coletiva.
Continuidade e diálogo
Para Luís Silva, o festival apontou caminhos para ampliar o diálogo entre diferentes conhecimentos e fortalecer a presença dessas vozes nos espaços urbanos. “Quando reunimos arte, educação e ancestralidade, abrimos espaço para que diferentes experiências dialoguem e ampliem nossa compreensão sobre cultura, memória e identidade”, analisa.
Serviço
Festival Encontro de Saberes | Exposição fotográfica “Raízes que movem”
Data: Visitação de 23 de março a 1º de abril
Local: Centro Cultural Palace (R. Álvares Cabral, 322 – Centro)
Entrada gratuita




