Cultura como vetor econômico: painel na Biblioteca Sinhá Junqueira articula experiências e evidencia impacto na economia local

Cultura como vetor econômico: painel na Biblioteca Sinhá Junqueira articula experiências e evidencia impacto na economia local

Entre desafios de financiamento e exemplos concretos de impacto, painel mostra como a cultura movimenta a economia e fortalece identidades na cidade

A cultura como força estruturante da economia local ganhou contornos concretos durante o painel “O papel da cultura no fortalecimento da economia local”, realizado no dia 21 de abril, na Biblioteca Sinhá Junqueira, dentro da programação do World Creativity Day Ribeirão Preto 2026. Ao reunir diferentes experiências, o encontro construiu uma leitura ampla sobre como a cultura atravessa dimensões sociais, econômicas e simbólicas, conectando produção, território e pertencimento.

A mediação de Vanessa Cicilini, produtora da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, abriu o debate destacando a necessidade de tornar visível o efeito gerado pelas iniciativas culturais. “É importante apresentar esse impacto em números, quantas atividades são realizadas, quantas pessoas participam, quanto de dinheiro vocês movimentam”, afirmou, ao chamar atenção para a dimensão econômica que sustenta o setor.

Cultura e orçamento: o desafio da prioridade pública

A partir desse ponto, o painel passou a evidenciar um dos principais desafios da cultura: sua baixa prioridade nas políticas públicas. “Por que cultura tem menos de 1% do orçamento? Porque não tem demanda. A política pública é fruto de demanda. Se não tem movimento, não tem atenção”, observou Adriana Silva, presidente interina da Fundação do Livro e Leitura, ao relacionar investimento público à mobilização social. Para ela, a necessidade de quantificar o impacto da cultura surge justamente como estratégia de diálogo com outros setores. “Era necessário dar números. E a gente nunca deu números. Quando esses dados começam a aparecer, mostram que investir em cultura tem retorno, inclusive maior que investir em pavimento.”

Território, identidade e ocupação dos espaços

A fala de Adriana Silva encontrou eco na experiência prática apresentada por Ciro Monteiro, representante da Biblioteca Sinhá Junqueira, mantida pela Fundação Educandário. Ele trouxe a vivência da biblioteca como exemplo de ocupação cultural efetiva. “A gente já enfrentou falas de que estávamos investindo em biblioteca com a rua esburacada. Mas o que a gente vem mostrando há seis anos é que, se o espaço é bem cuidado, com gestão adequada e múltiplas atividades, as pessoas ocupam.”, afirmou. Ao defender a ampliação de políticas públicas, ele sinalizou que iniciativas isoladas não dão conta da demanda. “Isso não deveria ser uma iniciativa só de uma fundação. Deveria ser política pública.”

O debate avançou, então, para a relação entre cultura e identidade, especialmente diante dos efeitos da globalização. Adriana retomou esse ponto ao afirmar que a cultura atua como elemento de diferenciação e pertencimento. “Quando tudo é de todos, nada de ninguém. A cultura é que dá especificidade. Só nós temos o que é nosso. E isso é o que dá unidade e identidade”, disse, ao destacar que o fortalecimento da cultura local é também uma resposta à homogeneização global

Economia criativa na prática: entre mercado e sustentabilidade

Na perspectiva do mercado e da sustentabilidade, a produtora cultural Bruna Lapenta trouxe o olhar de quem opera diretamente na economia criativa, evidenciando a necessidade de participação do público. “A cultura movimenta, a cidade é riquíssima, mas sem o público isso não tem continuidade. É importante que as pessoas participem do que é ofertado, porque isso sustenta os projetos”, afirmou. Sua fala apontou a conexão direta entre presença, consumo e viabilidade econômica das iniciativas culturais.

Complementando essa leitura, Antonio Resende, do Conselho Municipal de Cultura, aprofundou seu olhar no que se refere a financiamento e estruturação do setor. “O investimento disponível está aquém do potencial produtivo do país. A demanda sempre vai ser maior do que o recurso disponível”, afirmou. Para ele, o papel do poder público é duplo: manter manifestações existentes e criar condições para o surgimento de novas. “Cabe ao ente público garantir financiamento e desenvolvimento. Porque a cultura se movimenta junto com a sociedade.”

Ao trazer dados concretos, Antonio evidenciou o descompasso entre demanda e oferta. “Em um recente edital, tivemos 1.236 inscritos para 20 projetos. Isso mostra a dimensão da demanda. E mesmo quando o recurso existe, ainda há instabilidade. A gente precisa garantir continuidade, porque quando se fala em corte de gastos, o primeiro corte é na cultura.”

O debate também trouxe à tona a complexidade dos mecanismos de financiamento. Adriana destacou o papel das leis de incentivo, fundamentais para a viabilização de projetos, mas que também criam distorções. “Sem as leis de incentivo, a gente não entrega o que entrega hoje. Mas, ao mesmo tempo, elas acabam dificultando iniciativas menores, que não conseguem acessar esse formato”, explicou. Para ela, a solução passa por ampliar o acesso e fortalecer a base de consumo cultural. “Se tiver gente consumindo cultura, tem produtor produzindo cultura.”

Ao longo do painel, as falas se entrelaçaram sem sobreposição, construindo uma narrativa que alternou desafios estruturais e evidências concretas de impacto. Nesse sentido, a atuação da Fundação do Livro e Leitura foi o eixo articulador desse ecossistema, conectando formação de público, produção cultural e desenvolvimento territorial.

Na reta final, a discussão retornou ao ponto inicial levantado pela mediação: a importância de tornar visível o impacto da cultura. “Quando a gente olhar esse impacto e o tanto que essas pessoas movimentam através da cultura, transformam pessoas e movimentam a economia local, a gente passa a enxergar de outra forma”, reforçou Vanessa.

Sem encerrar o tema, o painel deixou uma direção clara: o fortalecimento da economia local passa necessariamente pela valorização da cultura como ativo estratégico – não apenas pelo que representa simbolicamente, mas pelo que efetivamente produz, mobiliza e transforma no cotidiano das cidades.

Cultura em números: impacto direto na economia e no território

Os dados apresentados pelos participantes evidenciam a dimensão econômica e social das iniciativas culturais:

A Biblioteca Sinhá Junqueira recebe, em média, 750 pessoas por dia e registrou cerca de 195 mil visitas ao longo do último ano, com circulação de aproximadamente 90 livros por dia – o equivalente a um empréstimo a cada seis minutos. No mesmo período, foram realizadas quase 800 atividades culturais, com média de 30 participantes por ação.

A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto movimenta entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões por edição da FIL (Feira Internacional do Livro), que reúne cerca de 270 mil pessoas, além de desenvolver projetos como o “Combinando Palavras”, que envolve anualmente cerca de 8 mil estudantes.

Na economia criativa independente, eventos como a Feira do Coletivo e o Festival Pé de Rua chegam a reunir entre 3.500 e 7 mil pessoas por edição, movimentando valores entre R$ 100 mil e R$ 150 mil em poucas horas de atividade, com a participação direta de cerca de 80 a 100 trabalhadores e empreendedores.

Durante o período de Carnaval, iniciativas culturais chegaram a atrair até 35 mil pessoas em três dias, com movimentação direta estimada em cerca de R$ 200 mil, além de impactos indiretos em setores como hotelaria, alimentação e comércio informal.

No campo das políticas públicas, editais culturais conduzidos pelo Conselho Municipal de Cultura registraram alta demanda, com exemplos de mais de 1.200 inscritos para apenas 20 projetos selecionados. Em outra frente, investimentos de cerca de R$ 6,5 milhões em programas de fomento cultural geraram impacto direto em mais de 5 mil trabalhadores em cidades do interior.

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