Você paga pelo crime alheio

Você paga pelo crime alheio

Os incêndios na Amazônia não exterminam apenas a maior floresta tropical do mundo. Eles têm um custo imediato, impactando o sistema de saúde pelo qual todos os brasileiros pagam. Isso interessa principalmente para os paulistas, que muitas vezes dizem: “Não tenho nada a ver com a Amazônia! Vivo em São Paulo, muito longe daquela região!”. 

É bom que esse paulista saiba que nossa Federação assimétrica possui dezoito Estados que dão prejuízo, ou seja, não têm economia suficiente para se sustentar e que apenas oito são autossuficientes. Dentre estes, São Paulo paga em tributos 204.151.379.293,05 reais e recebe de volta 22.737.265.406,96 ou seja, manda para a “viúva”, nada menos do que 181.414.113.886,09.

Então você, paulista está também pagando pelo tratamento que o sistema brasileiro de saúde tem de dispensar a quinze milhões de casos de doenças respiratórias registrados nas populações de territórios indígenas e de outras cidades daquela tão desprotegida região.

O custo estimado é de dois bilhões de dólares por ano, ou cerca de dez bilhões e cem milhões de reais. Por isso, até por economia, você deveria se indignar e reagir contra a continuidade e o aumento de intensidade dos incêndios que continuam a exterminar a Amazônia.

Isso é comprovado por um estudo publicado na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature, realizado por pesquisadores que foram remunerados pela Fundação Ford. 

Tudo é comprovado por números – e os números não mentem. Foram verificados os casos de atendimento emergencial por serviços de saúde, mas também o adoecimento crônico, devido a uma exposição permanente às partículas produzidas pelo fogo. 

O remédio para isso é conhecido de todos: preservar a floresta e demarcar os territórios indígenas. A floresta e as áreas demarcadas têm capacidade de mitigar as consequências da crise climática e, de imediato, aliviam o custo do sistema saúde. 

Se houver o cumprimento da promessa de demarcação de novos treze territórios indígenas, isso significará a redução de mais de 470 bilhões de gases de efeito estufa emitidos na atmosfera, o que se acrescenta ao estoque de dezenas de bilhões de toneladas de carbono. 

Preste atenção nisso e cobre do governo. Senão, você continuará a responder financeiramente pelo crime perpetrado por grileiros, posseiros e garimpeiros que exploram – dolosamente – terras públicas e indígenas.

José Renato Nalini

Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras. Foi presidente do TJSP e Secretário da Educação de SP. Professor universitário e palestrante.

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