O crime se espraia

Qual metástase, o crime se infiltra e passa a conviver, de forma pacífica e crescente, com as estruturas consideradas lícitas. Com a desenvoltura de quem não precisa observar a lei, nem as agruras das instituições controladoras e fiscalizatórias, a delinquência organizada se sofistica. Passa a concorrer em licitações as mais diversas, promove o desmatamento cruel do resíduo de Mata Atlântica resistente ao extermínio e cobra dos pobres para residirem nas áreas formal e ambientalmente protegidas. 

A grande e insensata conurbação chamada São Paulo encontra dificuldades incontornáveis para por cobro a essa inominável situação. Somente o município da capital perdeu 846 mil metros quadrados de vegetação nativa em quatro anos, cedendo espaço para loteamentos irregulares implementados pelos grupos criminosos. 

Existe uma ambiguidade perniciosa ao se invocar o direito à moradia como um ilimitado direito a destruir vegetação nativa em áreas destinadas à preservação ambiental e, mais importante do que isso, essenciais à continuidade da existência da água. Países civilizados conseguiram reverter a insana ocupação das margens de suas represas, mas o Brasil continua a permitir que as duas maiores represas paulistanas, a Guarapiranga e a Billings sejam entregues à senda cruel da ilicitude.

A formação de loteamentos irregulares rende mais para os bandidos do que o próprio tráfico de drogas. O esquema estatal para coibir a formação de milícias putrefatas é falível. Tudo muito burocrático e sem inteligência. Correr atrás do prejuízo. Trabalhar com o fato consumado. E, pior ainda, enfrentar a cumplicidade de alguns políticos profissionais que se beneficiam – direta e indiretamente – com a ação criminosa. 

Enquanto isso, os ditos “desenvolvimentistas” continuam a pregar o excesso da normatividade tutelar da natureza, invocam a soberania nacional para legitimar o direito de destruir o que resta de cobertura vegetal e são eleitos para o Parlamento, onde contrariam o preceito fundamental do artigo 225 da Constituição, uma norma bonita, mas diuturnamente desrespeitada. Em nome de dinheiro no bolso, extermina-se o futuro e acelera-se a finalização da experiência humana sobre a Terra.

A natureza desaparece e o crime prospera! Como foi que chegamos até aqui?

José Renato Nalini

Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras. Foi presidente do TJSP e Secretário da Educação de SP. Professor universitário e palestrante.

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