Houve um dia Mata Atlântica

Houve um dia Mata Atlântica

A Constituição Brasileira é um documento que serve para discursos edificantes, para invocar a soberania nacional, para constar de todas as petições iniciais, garantidoras de que o processo chegue à quarta instância:  o STF. Mas parece não servir para mais nada. 

Os exemplos são inúmeros. Mas para esta reflexão, é suficiente lembrar o parágrafo quarto do artigo 225 do pacto federativo: A Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais.

Mera retórica. Desprovida de consequência prática. Despudoradamente destrói-se a Amazônia, incendeia-se o Pantanal e condena-se a Mata Atlântica a ser uma lembrança mítica, assim como é a Atlântida ou o Jardim do Éden.

Ou essa tutela no texto fundante é compatível com o desmatamento de 21.642 hectares do bioma condenado à extinção, somente entre 2020 e 2021?

Os dados são fornecidos pela SOS Mata Atlântica, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, a registrar avanço do desmate em quinze dos dezessete Estados que integram o Atlas da Mata Atlântica. A fabricação de desertos cresceu 90% se comparado ao período de 2017 e 2018, quando se verificou o menor índice de destruição.

A cupidez não enxerga os benefícios da floresta preservada. É cega e surda ao clamor da ciência e do resíduo de lucidez que se verifica em alguns setores minoritários, porque a ganância – rima com ignorância – é o que mais prospera em nossos tristes tempos. 

Embora 72% da população brasileira ocupe áreas que um dia foram o que se chamou “Mata Atlântica”, a sociedade parece anestesiada pelos fanatismos fundamentalistas que aceleram o curso do fim da História. Acabar com o habitat natural é condenar-se ao término da experiência existencial que se desenvolveu durante milhões de anos, até que a humanidade resolvesse suicidar-se. Não há outra explicação! Pobres crianças, que sequer saberão que um dia houve uma tal Mata Atlântica.

José Renato Nalini

Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras. Foi presidente do TJSP e Secretário da Educação de SP. Professor universitário e palestrante.

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