Que saudades da Gonôrréia

Que saudades da Gonôrréia

Todos os meus amigos de infância estão fazendo 80 anos. “Em abril, sou eu”. A cada mês, uma festa de derrubar cinquentões. Em cada encontro, a saudades dos “bons tempos da brilhantina”. Em cada porre, a lembrança de dias e de coisas que não voltam mais. Por exemplo: a galocha, acho que os mais jovens nem sabem o que significa tão esdruxula e extravagante palavra.

Tratava-se de um artefato de borracha que se colocava por cima dos sapatos em dia de chuva para sair. Quando o sujeito chegava em casa, tinha um móvel onde se colocava a galocha. Aliás neste mesmo móvel ele depositava o guarda-chuva e o chapéu. Todo mundo usava chapéu. Três fabricas disputavam a cabeça dos brasileiros. Aramenzoni, a Prada e a Cury. Era um móvel bonito o porta chapéus. Todo mundo gostava de atirar o chapéu de longe para ver se acertava no ganchinho. Acho que nem em antiquários se tem mais essa preciosidade.

A lanterna é outra coisa que sumiu. Toda casa tinha, pelo menos três lanternas, era uma expressão da época. Me lembro que o amigo Sábato Magaldi, usava uma lanterninha acoplada na sua caneta para escrever no escurinho do teatro.

Mas nem tudo era perfeito. Naquele tempo, as obturações saiam sem mais nem menos. Hoje não caem mais.

Sim, naquele tempo todo mundo usava lenço no bolso de traz da calça. Saia-se de casa com um pente no bolso. E a sunga, então? A sunga era fundamental para não se dar vexame depois de dançar com as virgens namoradas.

Mas o que sumiu mesmo foi a gonorreia, que tanta tragédia nos trazia. Como contar para nosso pai, que se estava com aquilo? Um dia fui ao cemitério e li no muro do cemitério: “Saudades da Gonôrréia”. Tchau.

Beto Vaca

Proprietário do peculiar "Bar do Beto Vaca", é uma figura icônica e lendária de Cravinhos com personalidade carismática. Beto compatilha suas experiências de vida, pensamentos e ótimas histórias.