Era uma vez um neguinho. E um seu Zé. E uma mangueira. A partir disso, muita história foi contada pelo povo da cidade de Cravinhos.
O seu Zé era dono de uma grande fazenda de café e de um pé de manga. Certo dia, um neguinho que passava pela fazenda lembrou que a mãe gostava muito de manga e foi apanhar algumas. Nesse momento, o seu Zé que tomava tranquilamente um cafezinho na varanda, escutou um barulho estranho. Por isso, pegou sua espingarda e foi ver o que estava acontecendo.
Em um canto do quintal encontrou o neguinho jogando pedras na mangueira. O neguinho, diante daquela fartura, continuou apanhado os frutos, o que irritou o dono da fazenda. Quanto mais pedras o neguinho jogava mais irritado o velho ficava. Depois de algumas mangas derrubadas, o seu Zé não aguentou. Esperou o neguinho abaixar e, nesse momento, o pobre do neguinho ficou totalmente na mira da espingarda e o fazendeiro disparou.
O tiro saiu certeiro e encontrou as costas do apanhador de mangas. Assustado, o neguinho saiu correndo por uma estrada de terra, sangrando muito. Enquanto corria deixava um rastro de sangue. Correu muito, até o atirador perdê-lo de vista, mas o ferimento foi grave e o neguinho acabou morrendo. O seu Zé saiu atrás dele seguindo o rastro de sangue. Achou a vítima caída no meio do cafezal e percebeu que tinha matado o rapaz. Sem nenhuma piedade, enterrou em um buraco ali mesmo.
Nesse dia, o seu Zé sonhou com o neguinho. No outro dia, também. E assim, se passaram 365 dias de perturbações. Depois de todo esse tempo o velho não aguentava mais e um dia ficou bêbado, talvez para tentar se livrar do fantasma que o prosseguia. Mas, viu o neguinho novamente debaixo da mesma mangueira onde havia levado o tiro enquanto apanhava manga. Nesse momento, implorou para que o deixasse em paz, e ele respondeu:
Eu posso deixar o senhor em paz, mas vai ter que cumprir uma exigência. Por onde ficou marcado o rastro do meu sangue você deverá plantar uma grande fileira de mangueiras para que todas as pessoas, brancas e negras, adultos e crianças, possam chupar mangas abençoadas.
E assim, até hoje temos em nossa cidade o famoso Fileirão. Dizem que de vez em quando é possível ver o neguinho por lá, chupando manga e assustando o pessoal.
Essa história não acaba por aquí. Agora ela é de cada um de vocês.
Autores:
Guilherme Bastos
Francis Vagner
Paulo Henrique de Oliveira
Erik H. Eduardo Teodoro
História retirada do “Projeto Nossa História na Biblioteca: Algumas Histórias de Cravinhos“