Analfabetismo funcional atinge 29% dos brasileiros e limita avanço da produtividade no país

Analfabetismo funcional atinge 29% dos brasileiros e limita avanço da produtividade no país

Déficit de aprendizagem avança entre jovens e evidencia entraves à qualificação da força de trabalho.

O Brasil convive com um entrave estrutural que vai além da escolarização formal e impacta diretamente sua capacidade de crescimento: o analfabetismo funcional. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024 mostram que 29% da população entre 15 e 64 anos – quase três em cada 10 brasileiros – não domina plenamente habilidades básicas de leitura, escrita e matemática. O índice permanece inalterado desde 2018, evidenciando um quadro de estagnação.

Embora alfabetizados do ponto de vista formal, esses indivíduos apresentam dificuldade para interpretar textos de média complexidade, organizar informações e aplicar conhecimentos em situações cotidianas. O fenômeno revela uma dissociação entre acesso à educação e efetiva aprendizagem, com implicações diretas sobre o desempenho econômico do país.

A situação se agrava entre os mais jovens. Na faixa de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo funcional subiu de 14% para 16% no período, indicando perda de qualidade na formação recente. Mesmo entre aqueles que avançaram no sistema educacional, persistem lacunas: 17% dos egressos do ensino médio e 12% dos que chegaram ao ensino superior não atingem níveis adequados de proficiência.

Antonio Marcos Neves Esteca (Divulgação)

Segundo Antonio Esteca, especialista em avaliação e regulação da educação superior, avaliador do Inep/MEC e CEO da Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo, o dado reflete uma falha estrutural na formação educacional. “O país ampliou o acesso à escola, mas não garantiu aprendizagem consistente. O analfabetismo funcional expõe justamente essa fragilidade: a incapacidade de transformar escolaridade em competência”, afirma.

Pressão sobre a economia

A limitação na formação básica tem reflexos diretos na produtividade do trabalho, um dos principais vetores de crescimento econômico. Hoje, o trabalhador brasileiro gera, em média, US$ 22 por hora, patamar inferior ao observado em países latino-americanos como Chile e Argentina, onde a produtividade gira em torno de US$ 33. Em economias mais desenvolvidas, como a italiana, o indicador supera US$ 70 por hora.

Para Esteca, a defasagem educacional compromete a competitividade do país. “Sem domínio de leitura, interpretação e raciocínio lógico, há uma limitação objetiva na capacidade de execução, tomada de decisão e inovação dentro das empresas. Isso se traduz em menor eficiência econômica”, diz.

O impacto se torna ainda mais evidente em setores intensivos em conhecimento. Na área de tecnologia, por exemplo, o país enfrenta um déficit estimado em 1,5 milhão de profissionais. O problema tem origem na base educacional: segundo o PISA 2022, apenas 15% dos estudantes brasileiros do ensino médio são proficientes em leitura e 12% em matemática.

Exclusão digital e desigualdade

Em um ambiente cada vez mais digitalizado, o analfabetismo funcional amplia desigualdades. Mais de 90% dos indivíduos nessa condição apresentam baixo desempenho em habilidades digitais, o que dificulta o acesso a serviços, informações e oportunidades de trabalho. “A economia digital exige autonomia intelectual e capacidade de interpretação. Sem essas competências, o indivíduo não apenas perde oportunidades, mas também se torna mais vulnerável à desinformação e à exclusão”, avalia Esteca.

Desafio de longo prazo

Especialistas apontam que a reversão desse quadro depende de políticas públicas consistentes e de uma abordagem integrada entre educação básica, formação docente e qualificação continuada. O foco, segundo eles, precisa migrar do acesso para a aprendizagem efetiva. “O Brasil precisa alinhar sua estratégia educacional às demandas do século XXI. Isso passa por garantir que o aluno aprenda de fato, e não apenas avance nas etapas formais. Sem essa mudança, o país continuará enfrentando limitações estruturais ao seu desenvolvimento”, conclui Esteca.

Conheça nossos Parceiros

Sermi Auto Peças

Ver Empresa

Eduardo Chimenes Advocacia

Ver Empresa

Madeireira Rodrigues

Ver Empresa

ACI Cravinhos

Ver Empresa
Mais Notícias